2008-08-31

01/I - CLIN-CLIN, O BEIJA-FLOR MÁGICO

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Contos de Tinga Tinga             
 
 
Welington Almeida Pinto                                                    
 



  

CLIN-CLIN, O BEIJA-FLOR MÁGICO

 

             Welington Almeida Pinto                                                    

 

Era uma vez um beija-flor de cauda muito longa, azul como um pequenino Quetzal das terras dos antigos Astecas. De tão nobre e formoso foi batizado por uma fada madrinha pelo nome de Clin-Clin.

Além do porte real, o beija-flor tinha também poderes mágicos. Entre eles, o de curar uma flor de qualquer mal, tanto do corpo vegetal como da alma floral.

Certo dia, ao se aproximar de uma Margarida do Campo, foi grosseiramente rejeitado pela flor:

- Afaste-se, não gosto que bicho nenhum me beije.

Assustado o pássaro, imediatamente, recua-se.

- Assim que recebe um beija-flor, querida?

- Não estou nem aí! Detesto beija-flores – confessa a plantinha, aborrecida.

- Posso saber por quê?

A Margarida revira a haste, num gesto de pouco caso. Clin-Clin pergunta:

- Não sente amor pelos beija-flores?

- Não. Não sinto nada. Nadinha de nada.

- Brrr... Pois então não sabe o bem que podemos fazer ao coração das flores.

- Deixa de ser convencido. E me deixe em paz, seu abelhudo.

– Fala sério?

- Sim. Quer saber, odeio tudo nessa vida, principalmente os chatos – detona a flor, mais irritada ainda.

- Arre!

- Chega de baboseira. Vai logo dando o fora.

Era tudo o que Clin-Clin não queria ouvir. Um Lírio, ao lado, se intromete na conversa:

- Deixe de ser bobo, Clin-Clin, não perca tempo com essa desaforada. É uma tola, não vê?

- Ela está doente?

- Não sei. Mas vive assim de cara amarrada o tempo todo.

 - Verdade?

- Chiiiiiiiiiiiii!... Cansa minha beleza!

O beija-flor pensa um pouco e resolve voltar outro dia. No momento em que se preparava para o voo de partida, o Lírio sorridente pede:

- Antes de ir embora, quero outro beijo.

- Claro!

Clin-Clin beija o Lírio, a Macela e todas as flores ao redor. E, fazendo acrobacias no ar, sai da área a toda velocidade, mas com o pensamento embaralhado. A Margarida do Campo, ao ver a ave sumir no horizonte, suspira aliviada:

- Já vai tarde, seu enxerido!

Esperto até não poder mais, em vez de ir para casa, Clin-Clin voa para o castelo de Glinda, a mais encantadora das fadas daquela época, que recebe o passarinho com alegria:

- Bom dia, meu estimado beija-flor.

- Bom dia, minha bela madrinha.

- Que bons ventos trazem você ao meu reino?

- Um probleminha com uma Margarida do Campo.

- Ela anda aborrecendo você, não é?

- Muito.

- Eu posso imaginar.

- Nem dos raios de sol, nem dos passarinhos ela gosta mais.

Glinda, depois de pensar um pouco.

- Quer saber por quê?

- Sim.

- Ela se acha feia, jururu.

- Feia?

- Ao beijá-la pensa que você está zombando de sua triste figura.

O colibri, com cara de surpresa:

-  Puxa! Nunca pensei nisso.

- Pois é.

- O que posso fazer por ela?

- Ó, querido pássaro, quando essas ideias malucas perturbam o coração de uma flor só existe uma receita.

- Qual?

- Paciência, sabedoria e muito afeto.

- Ah, é?

- Isso mesmo.

- Obrigado pela dica. Então, devo ir.

- Assim tão rápido?

- Outras flores me esperam. Tiau. Tiau. Até outro dia, querida madrinha.

- Adeus, meu anjinho alado.

Satisfeito por descobrir o mal que perturbava a vida daquela flor, na manhã seguinte, Clin-Clin retorna ao campo florido e logo procura a Margarida do Campo. Ao se aproximar dela, novamente foi recebido com a mesma ousadia.

- Bicho xereta, suma da minha frente – diz logo a flor.

Clin-Clin espantou-se mais ainda, mas manteve a calma, dizendo:

- Gostaria de conversar com você, posso?

- Nem pense. Estou por aquiiiiiiiii com esses beijoqueiros.

- Imagino.

- Só me procuram para caçoar. Acha que sou tola?

- Ó, querida flor, você está muito enganada.

- Háháhá! Digo a verdade mais verdadeira do mundo.

- Nada disso.

- É isso mesmo. Nem flor eu sou.

- Não?

- Pareço, mas não sou. Veja como são mixurucas as pétalas que me vestem. Não passo de um raminho qualquer.

- Não é verdade. Cada planta, cada animal tem sua importância no universo da natureza, viu?

A Margarida do Campo, mais inquieta, retorquiu:

- Você deve ser mesmo um beija-flor doente dos olhos. Enxerga mal.

- Hein?

- Até entendo, prezado pássaro. Minhas pétalas, alvíssimas como são, ferem a vista de quem me olha.

- Nada disso.

- Pelo que eu vejo uma flor tem de ser bem colorida e pétalas bem perfiladas e vistosas.

- Nem sempre, querida. Você é perfeita e delicada como o Lótus trajado em sua beleza branca.

- Troçando de mim mais uma vez?

O beija-flor insiste:

- Suas pétalas brancas são tão puras que nenhuma outra flor possui igual, até parecem cobertas de prata. Na corola, possui o tom mais vivo que a cor amarela já produziu. Tudo como se fosse revestida de ouro.

A Margarida fica pensativa por alguns momentos, depois olha para o beija-flor e diz:

- Fala bonito assim só para me cativar, não é mesmo?

- Nada disso. Você é uma linda flor, charmosa como nenhuma outra por aqui.

- Jura?

- Juro.

- Então, me acha bonita de verdade?

- Sim.

A flor branca se emociona e começa a soluçar. Chora tanto que suas pétalas caem todas no chão. Despetalada e murcha de tristeza, ela entra em pânico.

- Santo Deus, que frio! Ai, como eu vou viver sem minhas pétalas? Desse jeito posso morrer congelada ou queimada pelos raios solares.

- Calma, calma...

Chocada e o coração aos pulos, ela pede a Clin-Clin:

- Quero minhas pétalas de volta.

- Fique calma que num minuto terá suas pétalas de volta – garante o beija-flor.

- Sério?

- Serio.

Clin-Clin tira a varinha de condão escondida na plumagem, bate com ela três vezes no caule da Margarida do Campo e, num instante, pétala por pétala retorna ao seu lugar.

Vestida novamente, a flor se emociona:

- Nossa, que chique!

- Viu como suas pétalas são importantes?

- Agora eu sei.

- Promete cuidar bem delas e tirar de sua cabecinha os pensamentos ruins?

- Sim, prometo.

E depois de refletir mais um pouquinho:

- Clin-Clin, esse gesto de bondade e tolerância jamais se apagará de minhas lembranças, viu?

- Assim é melhor, preciosa flor. Agora, vou beijá-la e partir.

A Margarida transbordando polens:

- Quantos beijos você queira, amado pássaro!

- Que romântico! - suspira uma Flor de Jade ao lado, fresca e risonha.

Nesse dia, uma alegria contagiante invadiu o íntimo de todas as flores da redondeza. A Margarida do Campo, toda branquinha e cheirosa, voltou a relampear ao sol, convencida de seus dotes.

E assim, ela viveu muitos e muitos anos de bem com a vida, irradiando amor por todas as pétalas.



FBN© 2008 * CLIN-CLIN, O BEIJA-FLOR MÁGICO/Categoria: Conto Infantil – Autor: Welington Almeida Pinto. Nova redação, de acordo com os atuais PCNs, recontextualizando o texto original do livro publicado com o nome “Clin-Clin, o Beija-flor Mágico”, em 1993 - Edições Brasileiras – Página na internet: http://outrashistoriasdebichos.blogspot.com.br/2008/08/tuffi-o-elefante-que-veio-do-circo_31.html
 
 
Folha anexa
 
CONQUISTANDO A LINGUAGEM
Compreensão do texto


Atividades/Responda em folha anexa:


1) Copie o trecho em que Clin-Clin pede ajuda à fada Glinda, acrescentando palavras novas.
2) Qual a verdadeira função de um beija-flor na Natureza? Pesquise e monte um painel com desenhos e gravuras.
3) Transcreva os trechos em que Clin-Clin foi amável com a margarida do campo.
5) Por que a flor chorou?
6) Invente uma história, tendo Clin-Clin como personagem principal.

Para a Professora:
Reflexão:
“Sentei-me sob uma macieira em flor. Aspergiu-me com seu perfume. Fez chover sobre mim suas flores. Entretanto, não me lembro de tê-la algum dia regado com uma gota de água sequer, nem lhe ter jamais trazido um punhado de adubo” - fragmento de um texto de Mikail Naaimé.
Motivação:
*Peça aos alunos para contar uma situação engraçada com relação a uma flor.
* Promova leitura dialogada. Escale crianças para representar a historinha em forma de jogral.
* Vocabulário: selecione os verbetes desconhecidos e oriente os alunos a consultar no Dicionário
* Educação Ambiental: Mostre aos alunos a luta da Natureza para perpetuar a vida. Converse sobre a importância em respeitar até um simples ramo de mato - cada animal, cada plantinha, cada poço de água que brota da terra tem um imenso significado no equilíbrio do mundo natural.

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS/PCNs
 
História de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ministério da Educação, certificada pela Diretoria de Desenvolvimento da Educação Infantil e Fundamental da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, conforme ofício nº 39/02, de 22 de janeiro de 2002.
GÊNERO: aventura.
TEMAS TRANSVERSAIS:
Ética: pássaros em comunidade. * Geografia e Ciências: espécies animais e vegetais do Brasil