2008-08-17

04/IV - COELHINO TROVADOR E O SOL

*
O mundo Está Mudando Muito Rápido
 
                      *

 
Severn Suzuki

A adolescente canadense que chamou a atenção de todos nós para os erros sistemáticos na sociedade mundial.
 Seu discurso calou o mundo por 5 minutos na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD). Rio de Janeiro, em junho 2009.
 




 

Welington Almeida Pinto

 

Havia, no tempo em que os bichos falavam um coelho conhecido pelo nome de Coelhino Trovador. Vivia no Chapadão da Zagaia, próximo à nascente do Velho Chico, o grande rio São Francisco que nasce na Serra da Canastra.

Sabido como nenhum outro da sua espécie, toda manhã, ele fazia uma deferência ao Sol, recitando um versinho de agradecimento:

 

Vem, Sol amado,

a Serra da Canastra alumiar.

Os seus raios quentinhos e cromados

Todo dia descem do céu para nos agasalhar.

 

 

Para o coelho, o Sol era a coisa mais bonita que tinha nas alturas. E assim pensando, certa manhã, acordou louco para ver o astro-rei bem de perto. Não deu outra, logo partiu para a sonhada aventura. Viajou horas e horas sem parar até que, de tão cansado, tropicou numa raiz exposta de um pé de Araticum, bateu com a cabeça numa pedra e caiu desacordado. Pobre coelho! Imediatamente começou a sonhar que, em vez saltitar, voava como um foguete até ficar cara a cara com o Sol, que o recebeu com um sorriso cheio de alegria:

- Olá, amigo Coelhino!

- Olá, Sol querido. Muito legal ver o amigo assim tão de perto – responde todo eufórico o roedor.

- Obrigado.

- Quero agradecer a luz e o morninho gostoso que manda para a Terra quase todo dia.

- Não precisa agradecer. Levar energia e calor para as criaturas da Terra é a minha mais nobre função.

Pausa. Coelhino retrai o sorriso:

- Só não gosto mesmo quando você fica muito tempo sem aparecer lá no Chapadão.

- Por quê? – admira o astro surpreso.

- Ah, sô, porque chove demais da conta!

- Não gosta das chuvas?

- Elas sempre atrapalham a vida dos bichos.

- Hein?

- Em dias chuvosos mal boto o focinho para fora da toca, tenho medo de morrer afogado. Fico lá torcendo e doidinho para você aparecer de novo.

- Ora, amigo, sem as chuvas a Terra não pode nada, nem de florir será capaz.

- É. Mas...

- Então você precisa conhecer importância da chuva caindo no seu planeta. O que acha?

- Uai, acho bom.

O sol abre um sorriso imenso e começa a explicar:

- Está vendo essa quantidade de nuvens aqui em cima?

- Amo as nuvens. Lá de baixo, meu passa tempo preferido é ver as figuras que elas formam no céu.

- As nuvens são muito mais do que isso.

- Ah é?

- Formadas pelas águas que vem da Terra, todas essas nuvens se transformam em chuvas, que se precipitam para regar e controlar a energia que entra e sai de seu mundo terrestre.

Coelhino curioso, logo pergunta:

- Meu Deus, como tanta água vem parar aqui em cima?

- Através da transpiração dos vegetais e da evaporação dos rios, mares e lagos. Isto é, sobe em estado gasoso – responde o Sol.

- Nossa!

- Para entender melhor, preste atenção: aqui em cima a umidade passa do estado gasoso para o líquido, congela e forma esse imenso bloco de gelo que estamos vendo, um verdadeiro mar voador.

- Tudo isso é gelo?

- Sim, gelo. Água em estado sólido.

- Então me explica como é que chove pingos d’água lá embaixo?

- Com a força da gravidade os cristais de gelo despencam céu abaixo. Na queda degelam e viram gotinhas de água, isto é, voltam ao estado líquido para molhar a Terra novamente. Simples, não é?

Coelhino, admirado:

- Não tem perigo de tudo isso despencar de uma vez na nossa cabeça?

- Controlo tudo numa boa. Fique tranquilo.

- Então por que, de vez quando, chove quadradinhos de gelo?

- É a chuva de granizo. Acontece quando gotinhas de água se congelam novamente ao atravessar uma camada de ar frio. Entendeu?

- Legal! Quando cai uma chuva assim pelas bandas da Serra da Canastra, não tem diversão mais deliciosa do que ficar lambendo o gelo que vem do céu. Coelho adora.

- Sim.

- Então me fala daquela chuvinha teimosa que cai dias e dias sem parar.

- Essa é Chuva Criadeira. Sua função é molhar bem o solo para as plantas crescerem viçosas.

- Tem mais tipos de chuva?

- Sim. Anote aí: Ciclonal, Convecção, Relevo.

- Deus do céu, que chuvarada!

De repente, o Sol tranca o sorriso e alerta:

- Mas a coisa aqui em cima não anda nada boa. Cada dia fica mais difícil manter esse ciclo da água de forma regular.

- Como assim?

- Tudo por causa do seu planeta cada vez mais poluído, mais remexido.

- Remexido?

- Isso mesmo, re-me-xi-do – repete o Sol com a voz alterada. - O bicho-homem precisa tratar a natureza com mais respeito e parar de agredir o meio-ambiente com tanta violência.

- Precisa, sim.

- Só mais uma coisinha. Você sabe que, cientificamente, a água é encontrada em três estados: sólido, líquido e gasoso, certo?

- Isso.

- Por minha conta e risco acrescento mais um. Quer saber?

- Qual?

- Estado Crítico – critica o sol em tom altivo, de modo a ser ouvido por todo mundo.

- Oh, sim!

- Quer dizer, água poluída e imprópria para a vida.

- Vixe

- É necessário parar de destruir florestas, remover montanhas, desviar rios, poluir águas potáveis, e de contaminar o ar. Arre! Até parece que, para o bicho-homem, a Terra não gira em torno do Sol, gira em torno do seu umbigo.

- Deus me livre e guarde! Uma coisa eu garanto, bicho no mato não faz nada disso – apressa o coelho.

O Sol, ainda com o carão franzido.

- O bicho-homem despeja na minha cara toneladas e toneladas de gases nocivos à camada de ozônio. Ufa! Todo santo dia é a mesma coisa!

- Camada de ozônio! Que isso?

- São os gases bons que protegem a terra dos raios solares. Funcionam como um manto de proteção, uma espécie de filtro solar. Acontece que esse manto protetor está cada vez mais destruído pelos gases nocivos que sobem da Terra. Melhor dizendo, cada vez mais arrasado pela poluição desenfreada provocada por essa gente lá embaixo.

- Imagino.

- Estupidez! Pura estupidez! - adverte o astro-rei, recolhendo um pouco mais seus raios.

E continua:

- O ser humano moderno usa cada dia mais objetos descartáveis, feitos de material que leva anos e anos para decompor. Falo do material plástico, conhece?

- Hummm! Claro que sim.

- Esse lixo costuma ir direto para o leito dos rios, degradando as águas e tudo em redor.

- Iche! Então é por isso que os rios estão, cada dia, mais rasos, sujos e malcheirosos?

- Sim, claro. Para piorar tudo, o bicho-homem inventou um monstrinho que roda sem parar para todo canto, esbanjando satisfação em contaminar impiedosamente o meio ambiente.

- Monstrinho?

- Essa máquina que eles chamam de automóvel, não conhece?

- Ah, sim. Vive atropelando bichos por onde passam.

- O próprio.

- Morro de medo deles.

- O pior que cada dia esse monstrinho aumenta sua população, uma praga.

- Verdade.

- Verdadeiro caos ecológico! Para ser gerado é preciso transformar montanhas inteiras de pedra-ferro em lata e, como se não bastasse, ele se alimenta do petróleo que vem das profundezas da terra ou do mar. A partir daí, o tal monstrinho inunda o céu de gás para infectar mais ainda a atmosfera terrestre. Um demônio!  Lança no ar poluição que afeta gente e bichos sem dó.

Pausa. Coelhino, depois de uma longa reflexão, pergunta aflito:

- Que é que o amigo Sol imagina fazer?

- Não sei. Não sei. Até porque sem a colaboração dos humanos não posso fazer muita coisa.

- Ã-Hã!

- Para restabelecer o equilíbrio ecológico é preciso reduzir o lixo, reaproveitar ao máximo os materiais e reciclar tudo que for possível. Não tem outra maneira de salvar seu planeta, viu?

- Muito bem. Ainda bem que não imagina nos abandonar, não é mesmo?

- Claro que não. Apesar de tudo ainda tenho especial carinho pela Terra. Farei o possível e o impossível para manter a vida lá, mandando energia para as plantas crescerem saudáveis. Não é o que você mais gosta?

- Hummmm! Adoro saborear um capim bem verdinho.

O Sol, mais calmo, volta a expandir seus raios:

- Sabia que essa plantinha saborosa que você tanto gosta é o resultado da fotossíntese?

- Foto o quê?

- Fotossíntese. O processo de converter energia luminosa em energia química para alimentar as plantas.

- Que legal! Então as plantas se alimentam de raios de sol?

- Também.

- Como é isso?

- Pela reação de três elementos: clorofila, água e gás carbônico. Sem a fotossíntese, ser vivo nenhum poderia viver na Terra.

- Puxa, que aula!

- Meu amigo Coelhino, enquanto depender dos meus raios terá chuvas suficientes para você comer folhinhas tenras de capim bem nutrido. Eu prometo.

O coelho levanta as orelhas.

- Coisa boa! Assim fico mais sossegado.

E brinca:

- Então é o dono da vida?

- Sou dono da luz, do calor e da energia para garantir a vida na Terra, o único planeta, dos que orbitam em torno de mim, que tem essa mordomia.

- Caramba!

- Fique sabendo que eu, o Sol, sou uma das maiores fontes de energia do Universo. Não cobro nada por isso, apenas peço um pouco mais de esforço dos humanos para não atrapalhar o meu trabalho aqui em cima.

- Legal.

- Sabe de uma coisa, Coelhino, penso que o bicho-homem tem muito que aprender com os bichos do mato, principalmente, como zelar da casa em que mora, não é?

- Concordo.

O Sol, cheio de si:

- Não fique chateado com minha ausência nos dias em que o céu parece forrado de camadas de algodão sujo. Nesses dias, estou jogando os raios em outras regiões da Terra para que o ciclo não se interrompa, viu?

- Quer saber, amigo? Preferia sol e chuva ao mesmo tempo.

- Espertinho, hein? Faço isso no ‘casamento da viúva’, como forma de simbolizar o renascimento da fertilidade. Então, para agradar meu amigo, de vez em quando, posso mandar ao Chapadão chuva e sol na mesma hora.

- Positivo! Obrigado, magnífico astro, por me ensinar tanta coisa que não sabia.

O Sol volta a sorrir. E revela:

- Sabe que é um coelho danado de inteligente. Quero agradecer as “quadrinhas” que recita para mim.

- Uai! Escuta de tão longo assim?

Quando o Sol ia responder, o Coelhino recobre os sentidos. Ainda sonolento, o pelo eriçado, pensa que nunca sonhou com nada parecido. Meio zonzo meio espantado fica de pé sobre as patinhas traseiras, protege os olhos com uma pata dianteira e, com a outra, dá um longo adeus ao amigo Sol, pronto para se por. Todo contente, verseja:

 

 

Adeus, Sol amado,

Volte amanhã a mata aquecer.

Os bichos alegres e encantados,

 Tem muito que agradecer.

 

 

O astro rei até parece que ouviu. No mesmo instante abriu um sorriso brilhante e espalhou o foco amarelo dos raios solares pelos quatro cantos do Chapadão. O coelho arredonda mais ainda os olhos, admirado.

- Trem de doido, sô!

E depois de pegar estrelinhas no céu com as patinhas dianteiras, esquece a dor no cocuruto e parte saltitante de volta para casa, ainda arrebatado com a sonâmbula aventura.

 

 


 
FBN© 2008 * COELHINO TROVADOR E O SOL/Categoria: Conto Infantil – Autor: Welington Almeida Pinto. Nova redação, de acordo com os atuais PCNs, contextualizando a narrativa original do livro publicado com o nome “Seu Coelhino, em Viagem ao Sol”, em 1993 - Edições Brasileiras. Ilust.: Severn Suzuki http://www.youtube.com/watch?v=uZsDliXzyAY - Link: http://outrashistoriasdebichos.blogspot.com.br/2008/08/o-ataque-do-gavio-mateiro.html
 
 
 
 
 
            Conquistando a Linguagem
                            Compreensão do texto
 
Atividades/Responda em folha anexa:
 
1) Desenhe o Sol.
2) Copie o trecho em que Coelhino caiu, perdeu os sentidos e começou a sonhar.
3) Qual a importância do Sol para a vegetação?
4) E para as espécies animais, o Sol também é importante?
5) Vamos fazer duas pesquisas. Uma sobre Sol e outra sobre família dos Oryctolagus Cuniculus (coelhos).
6) Você conhece outro poema ou letra de música que fale sobre o Sol? Qual?
 
Para a Professora
 
Reflexão:
* A Terra insultada, vinga-se dando flores - Tagore
* A discussão não é apenas salvar o meio ambiente, mas a própria humanidade. O planeta corre enorme perigo com a ação do homem.
* Reciclar lixo é tão importante para o ser humano como respirar
 
 
 
Motivação:
 
* Converse com os alunos sobre Poesia.
* Fale da forma sensível com que é descrito o sentimento.
* Faça a classe recitar, em coro, os versos do texto.
* Ensine as crianças a proteger o meio ambiente, tipo plantem árvores, porque elas consomem CO2 e transformam o oxigênio em energia, através da fotossíntese. O que uma criança aprende, logo multiplica a informação entre a família e amigos.
* Mostre que ela deve crescer respeitando a vida nos rios e avaliar os riscos de atitudes assim para o meio ambiente.
* Comente sobre as chuvas citadas e ainda sobre a Chuva Artificial provocada pelo homem.
* Mostre que a Terra é um organismo vivo e o homem é o seu maior predador.
* Vocabulário: selecione verbetes desconhecidos e oriente a consulta no dicionário
 
Educação Ambiental:
 
* Explique a importância do Sistema Solar.
* Fale mais sobre as chuvas.
* Ensine maneiras de respeitar e contribuir com o meio ambiente.
* Mostre a importância da reciclagem de papel, plástico, mineral e vidro.
* Cuidar do planeta em que vivemos: apesar de não haver obrigação do ponto de vista legal, acaba sendo compromisso moral.
 
Principais flores da Serra da Canastra:
• Lírios
• Flor de Jade, Macela
• Flor sempre-viva
• Hibisco Branco
• Ipê Amarelo
 
 
Para sabe mais:
 
* Chuva Ciclonal - características das áreas de baixa pressão em virtude da constante ascensão das massas de ar.
* Chuva de Convecção - oriunda do movimento ascendente diurno das massas de ar, freqüente na região equatorial e nas montanhas.
* Chuva de Relevo - típica das encostas das montanhas ou escarpas de planaltos, por causa da mais baixa temperatura reinante nos trechos de maiores altitudes.
* Chuva Criadeira - aquela constante que todo fazendeiro adora, pois molha bem a terra para as plantações.
* Chuva Artificial - resultante da projeção, numa nuvem, de substâncias como iodeto de prata e o cloreto de cálcio, agentes químicos capazes de promover a multiplicação de cristais de gelo ou a solidificação de gotas de água evaporadas.
 
 
PCNs – PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS
 
* História de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ministério da Educação, certificada pela Diretoria de Desenvolvimento da Educação Infantil e Fundamental da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, conforme ofício nº 39/02, de 22 de janeiro de 2002.
GÊNERO: aventura científica.
 
TEMAS TRANSVERSAIS:
* Ética: relacionamento de animais e a natureza.
* Geografia e Ciências: espécies animais e vegetais do Brasil – região da serra da Canastra – fenômenos da natureza.