2008-08-17

06/VI - O CANÁRIO DA AROEIRA


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Canário da Terra

 

http://www.youtube.com/watch?v=FK_7jHIOu90 

 



   

                           Welington Almeida Pinto
 



Esporte favorito de menino criado no interior era pegar passarinhos com alçapão de imbaúba. Não havia diversão melhor do que caçar no mato um Canário da Terra, aquele de peito amarelo, farta penugem verde escurecida nas costas e tons avermelhados na coroa da cabeça. Também chamado de Cabecinha de Fogo ou Canarinho de Telha, no sul do Brasil.

Depois de manso ele se tornava um extraordinário cantor na gaiola. E, para ficar mais valente a garotada vivia testando o bichinho em rinhas espalhadas pela cidade. Isso, mesmo! Não tinha alegria maior de menino do que ver seu canário ganhar uma briga. Motivo para passar a semana toda contando vantagens sobre o episódio marcial.

Caçada ao Chapinha, outro nome do passarinho, tinha seus macetes para aprisionar o pássaro. Além de quirela de arroz ou canjiquinha de milho, colocava-se espelho no fundo do alçapão, um velho truque para pegar canário brigão. Ao ver seu vulto refletido, imaginava que outro da sua espécie estava ali para insultá-lo. Desse jeito, descia com tudo para dentro da armadilha para atacar o adversário. Traído pela própria imagem ficava preso.

Divertia-me esse entretenimento cruel que ocupou boa parte da infância. Passava horas e horas escondido, atrás de uma árvore, na expectativa de prender um canário, atraído pelo seu belo canto - tão cobiçado que se transforma numa sentença de cárcere, decretada pelos caçadores e traficantes de passarinhos.

Companheiro bom para compartilhar o gosto pelos passarinhos era o Lincoln, colega no educandário e parceiro de ideias. Depois de executar o dever de casa, encontrávamos para cuidar dos bichinhos na minha casa ou na casa dele. Cada um engaiolava seus passarinhos: um no alpendre, outro na janela da frente da casa, outro pendurado debaixo do pé de manga ou de abacate. Grande momento de desafio entre eles. Quando um deles se punha a cantar os outros disparavam com o mesmo entusiasmo, um querendo subjugar o outro - o canto é um mecanismo de corte para atrair as fêmeas.

Certo sábado, combinamos sair para pegar canarinhos. Mal raiou o dia, partimos para o mato com as gaiolas e matula para saciar a fome durante o dia todo. A intenção era pegar um valente casal de canário na Fazenda do Lazinho, retirada três quilômetros da cidade, aninhado numa árvore de Aroeira.

No local, vários garotos com o mesmo objetivo. Entre os caçadores, destacava um moleque que caçava com o visgo. Para quem não sabe, visgo é uma armadilha atroz para prender passarinhos pelos pés, feita com a goma grudenta do leite de Jaca. Depois de enrolada de fora a fora numa vareta de bambu, passarinho que pousasse nela ficava grudado mesmo.

Naquela manhã, a sorte dos passarinhos foi maior. Ninguém conseguiu prender o casal. Ao deixarmos o lugar, o garoto do visgo, meio desapontado, mas com mania de grandeza, bradou para todo mundo ouvir:

- Amanhã, não vai ter para ninguém. Vou pegar esse espertinho de qualquer jeito.

A maioria da meninada caiu na risada, debochando do piá. Eu e Lincoln recolhemos nossas gaiolas e voltamos para casa, decididos a retornar no dia seguinte com um alçapão mais eficiente, daqueles que se arma também na lateral, artifício mais hábil para enganar a criaturinha de nossos sonhos.

No domingo, acordo ansioso para sair. Manhãzinha ainda, eu encontro Lincoln esperando no portão de minha casa todo cheio de entusiasmo. Sem perder tempo, caminhamos até o pé de Aroeira, aproveitando bem a manhã que estava fresca. Havia chovido durante a noite.

Ao contrário do dia anterior, deparamos com o lugar mergulhado numa quietude estranha - nenhuma pessoa por perto. Muito menos o pio dos canários. Mesmo assim, armamos as gaiolas em mourões diferentes e ficamos ali um tempão, com os olhos perdidos no infinito à procura de um sinal dos canários conhecidos. O único som era o trinado de uma Maria-Preta, pousada na Aroeira.

Na medida em que o tempo ia passando, começamos a pensar mil coisas. Tento animar o companheiro que já manifestava vontade de desistir a empreitada:

- O canário da Aroeira vai aparecer, fique tranquilo, sô! Vamos esperar mais um pouco.

- Sei não! – responde Lincoln com uma voz de quem estava imaginando coisas.

Zombo dele:

- Deixa de cisma, cara.

- Uai. E não é para ficar desconfiado?

- Sim, mas... – respondo coçando a cabeça, inquieto também.

Pouco mais tarde, surge um guri com gaiolas nas mãos. Ao ver o companheiro chegando para perto de nós, um friozinho percorreu minhas pernas e, com o coração aos pulos, fui logo perguntando.

- Oi, Pelé! Vem de onde?

- Lá de baixo. Peguei esses dois - responde o caçador, mostrando os pássaros dentro do alçapão.

- E o canário daqui?

- Ué, ainda não sabe? – estranha o menino, piscando significativamente os olhos.

Meu coração pulsa novamente.

- Que foi? Fala logo, sô?

- Nossa mãe, nem bem amanheceu o dia, aquele pirralho com cara de porquinho-da-índia espantado..., o daquele trem, o tal visgo, matou o pobrezinho com uma pelotada de estilingue.

Lincoln não se contém. Recua um passo e aperta a testa com a palma da mão:

- Não pode ser, nem acredito.

- Diacho! – fala mal o outro.

E emenda:

- Esconjuro. Ele matou por inveja

Amargurado e cheio de pena, viro os olhos para o chão. Depois, enxugo as lágrimas com a manga da camisa. Despeço do companheiro Pelé e chamo meu colega para voltar, lamentando:

 - Pobre avezinha! Puxa vida, que covardia.

- Meu Deus, malvadeza pura!

Do curral, um vento brando ainda trazia o cheiro adocicado de cana picada e esterco fresco de gado. Lá no alto, sereno e confiante, planava um grande Gavião-Mateiro.







FBN© 2008 * O CANARIO DA AROEIRA/Categoria: Conto Infantil – Autor: Welington Almeida Pinto. Nova redação, de acordo com os atuais PCNs, recontextualizando o texto original do livro publicado com o nome A Caçada, em 1993 - Edições Brasileiras. Ilust.: http://www.youtube.com/watch?v=FK_7jHIOu90 - Link: http://outrashistoriasdebichos.blogspot.com.br/2008/08/tufi-o-elefante-que-veio-do-circo-verso.html


 


CONQUISTANDO A LINGUAGEM
Compreensão do texto





1) O Canário da Terra é o passarinho mais brasileiro que existe, encontrado de norte a sul do país, a encantar nossos olhos com a beleza verde-amarela e o canto de pura alegria. Ele é conhecido por vários nomes, cite outros.
2) Também já foi um pássaro urbano. |As praças e jardins eram cheios deles. Como fazer para o Chapinha voltar a cantar nas cidades brasileiras?
3) Os dois personagens eram apaixonados por passarinhos presos em gaiolas. O que você acha? Gostaria, ou não, de ter passarinho em casa? Por quê?
4) Copie a parte do texto mais interessante, mudando ou acrescentando frases.



PARA A PROFESSORA.

Textos para reflexão:


[...] A mais pura imagem da liberdade é, para mim, uma ave; corta os céus em largos voos, desce à fonte, aos grãos, entoa seu canto, eleva sua alegria ao Criador e, ao cair da noite, pode adormecer tranquila porque sua liberdade soube usar. Grande exemplo de um pequenino ser, que o homem ainda não quis compreender - fração de um texto de Antenor Vieira de Melo.

[...] De repente, o canário trina e amarela/A sombra da mangueira e o quintal/Resiste e canta o cabecinha de fogo/Desde antigamente, quando talos de embaúba entreteciam sonhos/A vida não segurava o tempo, e a infância voava no azul e branco - poesia de Pascoal Motta

MOTIVAÇÃO

 

* Fale sobre amizade entre amigos.
* Organize um jogral com os alunos.
* Vocabulário: selecione verbetes desconhecidos e oriente a consulta no Dicionário
* Educação Ambiental - Fale sobre a importância da fauna alada na preservação das florestas – dispersão de sementes.
* Faça um mural com as espécies de pássaros conhecidas, envolvendo os pais dos alunos. Convide alguém ligado ao meio-ambiente para conversar com os alunos sobre a Legislação de Proteção da Fauna e Flora no Brasil.

 
PCNs – PARAMETROS CURRICULARES NACIONAIS

* História de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ministério da Educação, certificada pela Diretoria de Desenvolvimento da Educação Infantil e Fundamental da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, conforme ofício nº 39/02, de 22 de janeiro de 2002.

TEMAS TRANSVERSAIS

* Ética: caça aos pássaros – relacionamento de pessoas com animais.

* Gênero: aventura.

* Geografia e Ciências: espécies animais e vegetais do Brasil.

* Português: diversidades das línguas e dos costumes